BIOGRAFIA DE EVA DUARTE PERON












A 7 de Maio de 1919, numa província remota da Argentina - Los Toldos, nascia uma das mulheres mais poderosas e controversas do século XX, que chegou a deter um poder jamais imaginado por qualquer esposa de um chefe de estado, em qualquer parte do mundo.





Seu nome de baptismo é Eva Maria Ibarguren, filha ilegítima de Juana Ibarguren (de origem índia) com Juan Duarte, que alguns anos mais tarde seria conhecida por Eva Duarte (apelido adoptado por sí própria), e depois pelo nome de Eva Peron, terminando com o culminar de anos e anos de luta, de trabalho e de sacrifícios.





Também as irmãs de Eva (Elisa, Erminda e Blanca) com o irmão (Juan) não foram profilhados, pois Juan Duarte tinha a sua família legítima numa outra cidade argentina, se bem que os visitasse regularmente e lhes levasse presentes e dinheiro.





Vivendo numa Pampa Argentina muito isolada e fechada, com regras e costumes muito rígidos, e com todos os vizinhos sabendo que ela era filha ilegítima e que a mãe era a "outra" que recebia o pai "o outro" de vez em quando, Eva nunca se esqueceu na sua vida inteira, como foi humilhada e rejeitada pela sociedade onde vivia, pois as famílias vizinhas não a deixavam brincar com os seus respectivos filhos, e nem falar com eles, sendo muitas vezes alvo de piadas grosseiras, troçistas e difamatórias.

Ao logo de toda a sua vida, quer artística quer política, Eva nunca se esqueceu das "classes sociais" dominadoras no seu pais - na Argentina - que tanto a estigmatizaram, quer a classe média (a que seu pai pertencia) quer as outras classes (nobreza e burguesia), até obter o poder político, entre 1946 e 1951, altura em que se vinga plenamente, com total poder de vida e de morte na Argentina.





Juan Duarte (seu pai) morre em 1926 num desastre automobilístico, e a família de Eva é proíbida de entrar no velório, e de assistir ao enterro de perto, pela família legítima. Consta-se que Eva terá conseguido entrar no velório e ver o seu pai, antes de ser posta na rua com berros e injúrias.

Apesar de Eva ter crescido com a sua família (mãe e irmãos) à sua volta (já na vila de Junín), ela cria um mundo muito seu, e está decidida a vingar na capital dos seus sonhos - Buenos Aires - , e a ter tudo o que sempre sonhou e desejou por inteiro.

O primeiro homem a ser conhecido na sua vida, terá sido Augustin Magaldi, um cantor de tangos e guitarrista de 2ª categoria, em digressão pelas províncias interiores da Argentina.





Aos 15 anos de idade, Eva estava farta da vida que levava, sem riso nem glória, e sonha ser cantora ou actriz de cinema. Com uma cara muito pálida e uns grandes olhos pretos, muito vivos e expressivos, não passa despercebida a este cantor de tangos.





Assim, em 1934, e com apenas 15 anos de idade, convence Augustin Magaldi a levá-la consigo para a capital, levando apenas consigo uma malita de cartão, para ir ao encontro do seu destino incrível e extraordinário.





Mas Buenos Aires é fria e agressiva, tal como o cantor de tangos, e Eva terá de sobreviver sózinha sem a ajuda de ninguém. Muitos anos mais tarde, no seu leito de morte, diria a alguém que a acompanhou nos difíceis últimos meses da sua vida : "nunca fui feliz na vida, foi por isso que saí de casa : minha mãe ter-me-ia casado com um homem grosseiro e sem educação, e eu nunca o teria suportado, uma mulher decente tem de subir na vida".

A partir de 1935, Eva afasta-se de Magaldi, e começa a trabalhar em clubes nocturnos e no teatro. Sobre este assunto da sua vida, Eva declarou que fez o que tinha a fazer, mas nunca foi prostituta, pois aí nunca teria nem futuro nem uma vida.





Entre 1940 e 1943, a carreira de Eva Duarte (Eva adopta definitivamente o apelido do seu pai) centra-se fundamentalmente nas emissões de rádio e em filmes, e é nas suas relações com amigos chegados, que começa a conhecer oficiais de alta patente do exército argentino, ligados directa ou indirectamente ao poder político, e Eva tudo faz para estabelecer contactos que lhe dêem a possibilidade de mais depressa chegar ao topo.








E a grande oportunidade surge, quando Eva Duarte conhece o coronel Juan Peron em 1943, numa festa de angariação de fundos, para as vítimas de um sismo, numa região muito pobre do sul argentino. Curiosamente foi Magaldi quem a convidou para essa festa, o que sugere que ambos nunca terão cortado relações definitivas.

Eva, nessa altura, já cuidava da sua imagem, pois arranjava o cabelo estilo Madamme Pompadour, muito elaborado (mas ainda da sua cor natural castanho-escuro), as unhas (de vermelho), vestia blusa com saia-casaco e vestidos elegantes, calçava saltos altos, e ensaiava bem o olhar, a cara, as mãos, o corpo.





Por seu lado, Juan Domingo Peron, um viúvo com 48 anos de idade (a primeira esposa tinha falecido com câncro no útero), tinha já um imenso poder no governo e fama de gostar de jovens actrizes muito novas.





Para além de ir discursar nessa angariação de fundos, para as vítimas deste sismo, os seus assessores mais directos, tinham-no aconselhado a procurar uma jovem esposa que correspondesse aos seus ideais românticos, mas também políticos. Eva sabia muito bem que o coronel Juan Peron iria comparecer, e ela tudo faria para o conhecer. Mas Peron vinha acompanhado com uma promissora jovem cantora e possivelmente sua futura esposa, e quando esta foi para o palco cantar tangos, Eva aproveitou a situação e ocupou o lugar da cantora, sentando-se a seu lado e apresentando-se como Eva Duarte. Alguns momentos depois Juan Peron, saía acompanhado com a futura Evita - Eva Peron, sua futura mulher.

No dia seguinte, Eva Duarte chega à estação da Rádio Belgrano (a melhor na Argentina), na limusine do governo.

Eva Duarte aparecia regularmente em revistas, posando com modelos de roupa da época.





Juan Peron era também, como Eva, filho ilegítimo, mas de um oficial do exército. Entrou para a Academia Militar em 1911 e atinguiu o posto de tenente aos 20 anos, e algum tempo depois casou com uma professora de liceu que morreu em 1938. Depois dessa perda, dedica-se completamente à carreira militar com força e garra, pois estava determinado a conquistar um lugar ao sol no governo e na política. Nesta aspecto, a sua ambição era tão fanática e tão perseverante como a de Eva. Juntando duas forças convergentes num mesmo objectivo e com os mesmos ideais, o resultado só poderá ser de êxito e de sucesso, como anos mais tarde se verificaria com a sua eleição e re-eleição para presidente da Argentina.

Antes da 2ª Guerra Mundial, ele viajou pela Europa observando as "transformações sociais" que ocorriam por todo o lado, e observava o seu grande ídolo político, Mussolini, influenciando e discursando para as massas.

Em Junho desse mesmo ano, Peron consegue influenciar alguns oficiais do exército a derrubar o então governo vigente. Enquanto ocorria a 2ª Guerra Mundial, a Argentina permaneceu neutra (assim como Portugal). A nova elite de oficiais do exército argentino, clamava por uma nova política com características nacionais muito expressivas, com os slogans Governação, Ordem, Unidade. Na Argentina antes do período peronista, toda a indústria e facções do comércio em geral, estavam nas mãos da elite inglesa, que se tinham fixado nesse território, devido às óptimas condições climatéricas que se ofereciam à agricultura e ao comércio em geral. Em contradição com as classes elevadas, ricas e prósperas, existiam as classes baixas, sendo exploradas através de salários miseráveis, sem sindicatos ou segurança social para os trabalhadores, na sua esmagadora maioria de classe baixa ou muito baixa.

No novo governo que se seguiu, Peron passou a ser Ministro da Guerra, pois no anterior governo vigente tinha sido Secretário do Trabalho, o que lhe granjeou ser conhecido no país inteiro.

Juan Peron, figura mediática na elite governamental, era tudo o que Eva Duarte ambicionava, para também ela atinguir o poder. Peron era um homem alto (1.80m) e moreno - um homem com um sorriso pronto nos lábios, resplandecente no seu uniforme militar. Eva sempre afirmou o seu amor e dedicação a Peron, e ele, por seu lado, deve ter sido atraído pela sua juventude, beleza e entusiasmo.

Mas a ambição fanática de ambos, pelo trabalho e pela conquista do poder, seria o maior elo de ligação para o sucesso. Eles precisavam um do outro, com todas as suas virtudes e defeitos. Através do nome e imagem Peron, Eva conseguiu a sua ambição de obter uma parte do poder total. Tudo o que Peron fazia, ou dizia, era estimulado por Eva, e ao fim de pouco tempo foi considerada indispensável por ele. A popularidade de ambos foi esmagadora. Faziam um casal de sucesso mediático, tanto a nível pessoal como político.

Eva Peron foi, na verdade, a grande responsável por grandes medidas reformistas em toda a Argentina. A ela se deveu o facto dos trabalhadores passarem a ter segurança social, reformas, cuidados médicos estatais, pensões e, sobretudo, o voto para as mulheres. Deve-se, também a ela, o ter expulso as multinacionais do país e as nacionalizações começarem a brotar.





Na realidade, o êxito do "Peronismo", foi Eva Peron a responsável máxima, se bem que camuflada pela imagem-homem, da figura masculina de Peron. Foi ela a realizadora das grandes façanhas do presidente.

Mas regressemos a 1944, em que Eva Duarte, a amante institucionalizada de Juan Peron, era a actriz mais bem paga da Rádio Belgrano.





Nessa altura já Eva tinha expulso do apartamento de Peron, uma menina jovem com quem ele dormia. Dizia-se que, num belo dia, chegou ao apartamento do Ministro da Guerra, de armas e bagagens, e chamou um serviço de transportes, para levarem os pretençes da rapariguinha, dizendo-lhe :"menina, podes ir embora, podes voltar para de onde vieste, já não és aqui precisa para nada...". Quando Peron voltou ao seu apartamento, nada disse a respeito deste assunto.

Juan Peron, agora Vice-presidente, estava próximo de se tornar um ditador fascista, e os seus opositores queriam-no afastar imediatamente. Mas quando tinha sido Ministro do Trabalho, tinha tido muito sucesso nessa pasta e, como tal, muita responsabilidade. Foi juntamente com Eva, que começou a ter reuniões com outros elementos que concordavam com as suas idéias, ideais e opiniões, pois era necessário muita coordenação e liderança neste novo, e que ainda não tinha nascido realmente, o Movimento Peronista do Trabalho. Peron começou, assim, a fazer reuniões e comícios com outros oficiais, sempre com Eva a seu lado, para o povo e trabalhadores da classe operária da Argentina. No início, o Movimento do Trabalho era fraco e desunido, mas com uma organização elevada e séria, poderia ser uma significativa base de poder. Assim, ele apresenta e refere-se sempre aos síndicatos como uma grande força nacional, controlada pelo poder estatal/governamental, em que todos estes dirigentes seriam nomeados pelo novo poder, que Peron proclamava, e queria para si.

Estes trabalhadores eram os tais famosos "descamisados". Eva acreditava que estes eram o seu povo eleito, e a sua campanha com Peron tencionava recrutar uma grande massa desta grande força popular. Nas emissões de rádio que fazia, usava-as como um veículo de propaganda para informar as massas, e sobretudo para as inflenciar com as suas palavras teatrais e incisivas:"só há uma pessoa que quer saber de voçês, povo trabalhador, que é Peron, pois só ele quis saber de mim".

Mas, em 12 de Outubro de 1945, Peron é detido, pelo teor das ideias e das afirmações que proclama nos seus comícios. Para mal dos pecados dos seus opositores, Eva não é considerada perigosa para a nação, pelos então ditadores.

E é aqui que Eva Duarte entra em cena, para mudar toda a história do rumo de uma nação, pois em vez de ficar a chorar em casa pelo amante preso e em perigo de vida, Eva começa, sózinha, a ir falar com operários, trabalhadores fabris, oficiais amigos de Peron, delegados síndicais, para ser feita uma concentração em honra de Peron em Buenos Aires.

Peron é, assim, libertado em 17 de Outubro, devido à grande manifestação de milhares de "descamisados" nas principais ruas de Buenos Aires, clamando palavras de ordem e slogans a favor da libertação de Peron - o novo herói, em plena ascensão, liberto pelo poder do povo. Com toda esta conjuntura, o então governo demite-se, e Peron é conduzido pelo povo, para as ruas da capital.





Para se tornar primeira dama, era necessário ser sua esposa. E Eva precisava de Peron, como ele precisava de Eva. Os descamisados adoravam a sua Evita querida, sempre de braços abertos e um sorriso enorme nos lábios. O poder que ela tinha sobre eles era indispensável para ele.

Em 21 de Outubro Eva torna-se, numa cerimónia secreta , a senhora Peron.








Depois de alguns meses de comícios e de viagens por toda a Argentina, a 25 de Fevereiro de 1946 Juan Domingo Peron é eleito Presidente da Argentina, e Eva torna-se a responsável pela Secretaria do Trabalho, que mais tarde chefiaria todo o controlo dos síndicatos dos trabalhadores, os regimes de pensões, enfim todo o sector estatal da Argentina.








Um dos maiores triunfos políticos de Eva Peron, foi a lei que autorizava pela 1ª vez o voto das mulheres.





Em 1947, Eva faz a grande viagem da sua vida à Europa, visitando Portugal, Espanha, França, Itália e Suiça.

Em Portugal foi bem recebida por Salazar e pelo povo portugês, o mesmo já não se passando em Inglaterra (a raínha não a recebeu e Eva também não visitou o país), nem na Suiça (o povo tratou-a mal, lançando-lhe pedras, tomates e ovos). Na Espanha foi muito bem recebida pelo general Franco (fez contractos fabulosos com a Espanha) e pela população. Em França contactou com a realeza, as grandes festas e recepções. Já na Itália foi recebida pelo Papa durante os 20 minutos protocolares, dados às primeiras damas. Mas aqui também nao se livrou que lhe chamassem puta ou protituta, como na Suiça.








Esta viagem de "promoção" da Nova Argentina Peronista, sempre teve algo de muito misterioso e de pouco claro, já que boatos sobre assuntos como o ouro nazi ou obras de arte desaparecidas, nunca ficaram esclarecidos, e ainda hoje o não são.

A viagem pela Europa durou 2 meses, e quando Eva voltou à sua nova argentina, depois de passar pelo Rio de Janeiro (a viagem de volta foi de navio), vinha com malas cheias de roupa de alta costura (Dior e Marcel Rochas), de jóias de ouro com pedras preciosas, de inúmeros casacos de peles, enfim todo um luxo que seria o seu marketing na nova era da argentina Peron. Também o seu cabelo mudou, encontrava-se com uma coloração louro brilhante, enrolado num banano na nuca, que nunca mais a abandonaria e seria o seu visual para sempre.








O perfume favorito de Eva Peron - Femme, era da autoria do costureito francês Marcel Rochas, o qual em 1966, idealizou um frasco especialíssimo em homenagem a Evita.





Eva Peron, já na Argentina, inaugura a Fundação de Ajuda Social, ou como gostava de chamar Assistência Social. Trabalha 15 horas por dia, e recebe pessoas muito necessitadas às Segundas, Quartas e Sextas-feiras, passando pouco depois a recebê-las todos os dias da semana, passando a trabalhar 20 horas por dia. Aqui Eva distribui presentes e dinheiro aos mais necessitados.





Ela funda esta organização de solidariedade social, devido ao facto das senhoras das classes sociais elevadas que faziam este tipo de trabalho, sempre a colocarem à margem de tudo; uma ajuda social em que tradicionalmente a liderança cabia sempre à primeira dama.





Evita, como era carinhosamente chamada, era frequentemente convidada para baptizados e eventos populares.





Esta fundação denominada Eva Peron construiu muitas escolas, creches, hospitais, lares, centros de saúde, ajuda a casas necessitadas, liceus e arranjava também equipamento hospitalar, equipamento escolar, treinava enfermeiras, acompanhantes de idosos e doentes, etc.

Ainda hoje na Argentina, muitos organismos estatais possuem o nome Eva Peron. Era um enorme estado de previdência social. Eva trabalhava duramente para arranjar dinheiro, pessoas, equipamento, meios, etc.





Eva Maria Duarte Peron atinguiu um poder absoluto na Argentina entre 1948 e 1951. Era ela quem comandava as operações de todo o staff Peron. Jamais uma mulher em qualquer parte do mundo conseguiu tanto poder em tantas áreas distintas e sensíveis.





Muitas áreas da indústria do país, em nome de capital estrangeiro, sofreram grandes revezes, pois muitas foram nacionalizadas ou mesmo fechadas, se nao fizessem o que Eva mandava. Ela esperava que as fábricas e as indústrias dessem a sua preciosa contribuição para os seus "descamisados", e quem não colaborasse sofreria pesadas sansões.

Existiram dois casos muito famosos e também tristes: uma das fábricas recusou pagar ou fornecer produtos e a electricidade foi cortada durante algum tempo; depois disso foi visitada por inspectores sanitários, e os frigorificos tinham carne em estado de decomposição, sendo a fábrica imediatamente fechada. Outro caso ocorreu quando uma outra fábrica, que produzia bombons, não colaborou, e o boato que correu, afirmava que estes tinham pêlo de rato, sendo assim impróprios para consumo. A fama desta fábrica era excelente e o staff de Eva arruinou-a para sempre. Também as senhoras da alta sociedade argentina, que sempre a desprezaram, sofreram com o seu poder, pois nas grandes óperas e ocasiões socais, Eva perguntava-lhes sobre a consciência pesada (das ditas senhoras) de terem uma jóia muito valiosa e pessoas a morrer à fome, no mesmo pais delas. Muito pouco tempo depois a referida jóia era entregue à benemérita Eva.

A respeito do grande luxo, que a rodeava na Casa Rosada, Eva sempre afirmou que as jóias, as roupas, as peles, os chapéus, as malas, os acessórios "pertenciam ao meu adorado povo, tudo isto lhes pertence, para sempre liderado por Peron, e que por ele vivo, respiro, luto, trabalho".





Em 1951 correm rumores que Eva Peron poderá candidatar-se a Vice-presidente para as novas eleições presidenciais, em que Peron tem grandes chances de vencer. Agora, finalmente, tudo o que Eva desejou poderá concretizar-se.





Mas as altas patentes das forças armadas nunca aceitariam que Eva se candidatasse a Vice-presidente, devido às suas duvidosas origens, e no caso de Peron morrer, Eva tomaria o seu lugar, e essa questão para o exército estava completamente fora de questão.





Mas, infelizmente, Eva não podia mais lutar, nem combater, pois nos últimos meses sentia-se muito debilitada e tinha já desmaiado em público várias vezes. Eva teve de declinar, fazendo um discurso na varanda da casa rosada. Eva começava a emagrecer rapidamente e a deixar de ter forças. Para uma mulher com uma vida completamente preenchida e cheia de luta, não deve ter sido nada fácil, e Peron que sempre lhe disse que nunca se podia parar de trabalhar, era preciso estar sempre a inovar e estar sempre ao lado do povo trabalhador. Na sua fundação, Eva aparecia por volta das 7 horas da manhã e saía por volta das 11 horas da noite.





Eva foi vista por médicos seus amigos e estes consultaram médicos dos EUA, sendo-lhe diagnosticado um câncro no útero (os médicos nunca lhe disseram do que padecia e do que mais tarde viria a falecer). Eva foi operada, e parecia mesmo que tinha melhorado, podendo talvez retomar algumas das suas actividades laborais. Mas muito pouco tempo depois, Eva torna a ter fortíssimas dores agudas e é novamente hospitalizada. Desta vez não haveriam mais chances, ou hipóteses de melhorar, pois o câncro tinha-se espalhado por todo o seu corpo.

Quando as notícias do seu estado de saúde chegam às classes que Eva tanto ajudou, este povo entra em delírio e em profunda consternação. Era impossível que uma situação destas estivesse a ocorrer. As pessoas faziam vigílias dia e noite, à porta da casa rosada, traziam muitas flores, davam o seu sangue. Por vezes Evita aparecia na varanda da casa rosada e acenava ao seu querido povo. Outras vezes, ainda conseguia fazer discursos muito violentos contra aqueles que eram contra a política de Peron.





Pouco tempo depois Eva Peron despede-se da multidão que sempre a ouviu discursar da varanda da casa rosada, prometendo voltar um dia...











Mas os inimigos estavam contentíssimos, pois numa parte do muro da casa presidencial foram escritas palavras de ordem:

" viva el cancer "...





Em 11 de Novembro de 1951 Peron é reeleito para um segundo mandato, como presidente da Argentina, e Eva muito debilitada vota no seu leito de moribunda.











Eva, cheia de dores, e já bastante magra devido ao câncro maligno, sem cura, quer a todo o custo acompanhar Peron, no desfile presidencial, poucos dias depois da vitória dos peronistas. Como não consegue estar muito tempo na posição de pé, um operário da casa rosada fez-lhe uma armadura com gesso e ferro, para suportar todo o corpo de Eva, e um braço em gesso na posição de levantado, para Eva conseguir acenar ao seu povo. No carro presidencial em que Peron e Eva estão levantados e a multidão acena também para eles, Eva vai dentro dessa armadura de gesso com o braço levantado à custa do molde de gesso, envolta num grande casaco de peles, que lhe fica muito largo. Acena à sua multidão com um olhar apagado e longínquo, sem esperança. Nesse dia, Eva teve de tomar 3 doses de morfina antes e depois do desfile presidencial.





A cara e o corpo de Eva degradam-se dia para dia, e no quarto da doente paira um cheiro nauseabundo. Consta-se que Peron, quando lá entrava, o que era muito raro, punha uma máscara que lhe tapava a cara... e pouco tempo antes de morrer, Eva arrastou-se até ao quarto de Peron para o ver, (ele tinha voltado às suas meninas adolescentes e estas vestiam as roupas de Eva) o que o deixou louco e furioso, pondo-se a gritar: "tirem-me esta coisa daqui"... Mas esta "coisa" pensava e temia muito pelo futuro do próprio Peron e da Argentina.

Outra situação que se contava à boca miúda, era o facto do general Peron obrigar Evita a arrastar-se muito doente até à varanda da Casa Rosada para acenar aos seus descamisados...





No fundo, apesar de algumas indústrias terem melhorado a qualidade de vida dos seus trabalhadores e algumas terem sido nacionalizadas, muitas outras continuavam a oferecer péssimas condições aos empregados, e as multinacionais continuavam a explorar os operários argentinos. Quando as manifestações ou greves, feitas por operários, vinham para as ruas gritar pelos seus direitos, era sempre Eva que dava a cara e Peron acobardava-se.

Em 4 de Junho de 1952 Eva aparece pela última vez em público, numa cerimónia prestada em sua honra, pelo que fez ao povo argentino.

Às 20 horas e 25 minutos, no dia 26 de Julho de 1952 e com apenas 33 anos de idade, esta mulher idolatrada por milhões de argentinos, exala a sua última frase - 'Eva se va'- morrendo de seguida (quando morreu pesava menos de 30 quilos). Toda a nação entra em choque e em crise.

A vida em Buenos Aires pára por muitos dias. Toda a actividade laboral pára, excepto o comércio de flores que existiu em grande escala, e em Buenos Aires as flores esgotam-se por completo.

O Vaticano, nesta altura, recebeu perto de trinta mil cartas para a "santificação" de Eva Peron, ao que responderam do vaticano que este assunto só poderia ser uma brincadeira ...

Milhões de pessoas querem ver pela última vez o corpo de Eva, que foi imediatamente embalsamado após ter falecido.

Este assunto é um dos mais controversos sobre a história da Evita, pois nunca se soube se ela saberia que iria ser embalsamada.

O embalsamador espanhol, Pedro Ara, já se encontrava no quarto de Eva, quando esta faleceu, e a ele se deveu o facto de todo o corpo ter sido perservado, incluindo os orgãos de todo o corpo e também o cérebro.

Depois de embalsamado o corpo, ele ficou depositado num urna coberta por um vidro transparente, para que a população a visse durante cerca de um mês, na casa rosada. Passado este tempo, o embalsamador disse que poderia ser perigoso que o corpo continuasse exposto, pois poderia se detriorar.

Assim, o corpo embalsamado permanece fechado numa pequena sala, sempre aos cuidados de Pedro Ara, que possuia uma chave da sala, juntamente com Peron, que visitou o corpo sómente 2 ou 3 vezes, antes de se exiliar no Uruguai em 1955, pois o seu poder tinha diminuído, já que Evita tinha morrido e todo o glamour e o poder que ela representava desapareceu.

Pedro Ara fica praticamente sózinho com um corpo de uma mulher, que um dia tinha sido muito poderoso, muito sedutor e glorioso. A restante família de Eva, nao tinha autorização para ver o corpo, e os inimigos de Evita queriam fazer desaparecer o corpo, pois ele representava um poder político que, embora já não permanecesse no poder, tinha ainda para alguns deixado saudade e esperança que voltasse.

Mas Pedro Ara tinha-se apaixonado pelo corpo que tinha conservado - embalsamado - , e quando os militares levaram o corpo de Eva para o esconder, teve atitudes vergonhosas em frente de todos, pois deitou-se em cima do corpo de Eva (o corpo estava completamente nú) e comecou a beijá-la e a acariciá-la...

O corpo de Evita, passou pelas "mãos" de muitos homens e todos afirmaram que se tinham apaixonado por ele, nao só pelo corpo, mas também o que ela tinha representado no passado e o que significava no presente...

Um coronel do exército, afirmou que a tinha enterrado de pé, pois ela era um macho e um macho morre em pé...

Outro militar, matou a mulher grávida de 6 meses, pois esta descobriu o corpo numa parte da casa...

Sabe Deus o que outros também lhe fizeram...

A mãe e as irmãs de Evita estavam desesperadas pois não sabiam onde Eva pairava e tentavam falar com todos aqueles que tinham algum poder para resolver esta situação dolorosa...

Depois de tudo isto, e muito secretamente, em 1957, o corpo de Eva sai da Argentina (com a ajuda de um padre católico que tinha sido seu confidente) e é enterrado num cemitério perto do Vaticano (Itália) sob um falso nome de uma mulher.

Em 1961 Juan Peron casa com uma bailarina que dança em clubes nocturnos, Maria Estela Martinez, mais conhecida como Isabelita, profissão que Eva tinha também desempenhado...

Peron e Isabelita fixam residência em Espanha, e Peron sonha voltar à sua Argentina...





O "Evitismo" (re)começa novamente a surgir, desta vez de carácter terrorista , com a realização de raptos e de assassinatos sobre aqueles que estiverem envolvidos no desaparecimento do corpo, o que iria ajudar na descoberta de Eva em 1971.

Entre 1970 e 1975 os Montoneros (também chamados de soldados de Eva Peron) praticam graves e sérios atentados na Argentina, matando e fazendo desaparecer centenas de pessoas, quer argentinos ou estrangeiros, estes representando (sempre) a alta burguesia, aquilo que Eva mais odiava e desprezava.

No dia 1 de Maio de 1970, Peron adverte aos montoneros, através da televisão, que os actos cometidos por estes serão desastrosos e fatais para o país.





Peron acusa-os de serem 'putos' estúpidos e imberbes, mas todos eles tinham barbas à cubana...





E os montoneros não se fizeram esperar...





O corpo de Eva é descoberto (pois encontrava-se em secredo de estado) e entregue a Peron e Isabelita, cheio de marcas e de cortes profundos.

Em Junho de 1973, Peron é novamente eleito presidente da Argentina, e Isabelita Vice-presidente, algo que Eva nunca chegou a realizar.

Mas Peron morre em 1974 com um ataque de coração repentino.





Isabelita Peron chega assim a presidente de todos os argentinos. É a primeira mulher na história do mundo a ser eleita presidente da república.





Num último acto para recuperar o poder cada vez mais perdido, Isabelita manda regressar o corpo de Evita à Argentina em 1974, e também devido à pressão cada vez mais forte dos montoneros.

No dia 16 de Novembro de 1974, o aeroporto de Buenos Aires encontra-se deserto e centenas de homens com pistolas-metralhadores aguardam a chegada do corpo de Eva, num avião militar, vindo directamente transladado de Espanha.

Passado poucos dias, o corpo de Eva Peron embalsamado (e recomposto), é exposto dentro de uma urna aberta, juntamente com o caixão (fechado) onde jaz o general Peron, na antiga "oficina" de Trabalho onde Eva trabalhava e atendia pessoalmente os seus "descamisados".





Ainda hoje, no museu da Casa Rosada, a fotografia de Evita ao lado do general Peron, ensombram as paredes desse passado assombroso e misterioso.





No cemitério de Recoleta, na capital Buenos Aires, descansa finalmente, a mulher Eva Maria Duarte Peron.

No meio de grandes mausoléus, de grandes inscrições e dedicatórias, está uma mortalha com palavas meio apagadas pelo tempo.

Aparentemente não parece ter nada de especial. Mas um nome aparece no meio de algumas inscrições: Eva Peron.

Por baixo desta média lápide, surge uma ante-câmara, e por baixo desta existem escadas que dão acesso a uma outra pequena câmara, onde jaz finalmente a Evita adorada dos seus "descamisados".

Todo este subterrãneo é à prova de qualquer ataque nuclar.

Só uma das irmãs vivas de Eva, Erminda - a segunda mais nova, possui a única chave no mundo.


Tudo isto foi pago pelo Estado.



Para que este corpo nunca mais desapareça e o mito nunca mais se torne numa nova realidade.















Mas no ano de 1996 surgiram muitas controvérsias sobre o possível rumo e futuro deste corpo...





Há dois anos atrás, depois do filme mundialmente conhecido como EVITA, surgiram notícias de que Eva tinha uma filha, proveniente de uma sua relação amorosa com um actor dos seus tempos de actriz.

Também Peron tem duas filhas e um filho, de relações com outras mulheres.

Em 7 de Abril de 1998, uma peça de joalharia pertencente a Eva Peron (a única conservada das centenas que possuía), foi vendida por 992,500 dólares, num leilão da Christie´s em Nova Yorque. Trata-se de uma peça feita com diamantes e safiras, rodeada com platina, representando a bandeira da Argentina. Evita, como era conhecida, adorava ser fotografada com esta especial jóia, devido a ter sido feita exclusivamente para ela, pelos joalheiros franceses Van Cleef and Arpels no início de 1949.







Em meados de 1998, Isabel Peron, foi chamada a depôr em tribunal na Argentina (vivendo actualmente em Espanha?) relativamente à administração que realizou como presidente dos argentinos, aquando da morte de Peron. Ao que parece alegadas acusações de desvios de verbas para o seu bem pessoal...

Sendo a última representante da Dinastia Peron, hoje em dia é (infelizmente) totalmente impossível conseguir uma entrevista...







É este o retrato mais popular de Evita, na Argentina, nos dias actuais.















EUA, Dezembro de 1996:

Andrew Lloyd Webber e Tim Rice lançam o megafilme EVITA, que conta com a participação de Madonna e António Banderas nos príncipais papéis.







BUENOS AIRES, 26 de julho de 2000:

O actual presidente da Argentina, Fernando de la Rua, recordou neste dia a figura emblemática de Eva Perón, a segunda esposa do defunto ex-presidente Juan Domingo Perón, ao completar-se 48 anos da sua morte.

Como motivo de aniversário, o presidente "dos argentinos expressou a mais respeitosa recordação à sua memória", afirmou um comunicado divulgado pelo actual governo.

Tradicionais dirigentes do (actual) peronismo rodearam o túmulo de Evita, como era carinhosamente chamada, situado no cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, para render homenagem à "defensora dos humildes e dos trabalhadores".

Eva foi sempre uma fanática colaboradora do marido, quando se entregou de corpo e alma às reformas sociais e transformistas na Argentina, para todos os humildes, que ainda agora a idolatram.

Entre 1946 e 1952, Evita foi a intermediária entre o presidente e os chamados "descamisados" - os sectores operários e marginalizados, que desde então tem sido o baluarte do peronismo-evitismo.

A suposta filha de Eva Perón, Nilda Quartucci (de 60 anos) nascida em 1940, juntamente com a sua filha Roxana Panzeri, apareceram na televisão argentina, afirmando que desejam conseguir uma prova de ADN que revele publicamente a sua relação com a segunda esposa do falecido presidente argentino.

"Muitos políticos sabem que dizemos a verdade. Somos unicamente duas pobres mulheres que pretendemos a verdade", assegurou Nilda.

Ambas as mulheres pedem à irmã de Evita (Erminda), ainda viva, que se preste a análises sanguíneas.

"Chegou a hora, depois de tantas décadas e de tantos anos de sofrimento, que estas senhoras (do clã Eva Peron) reconheçam a verdade", diz a suposta neta.

Os documentos na posse destas duas mulheres, incluem uma carta que foi enviada em 1985 pelo sacerdote jesuíta Hernán Benítez, falecido em 1995 e conhecido confessor de Eva Perón, a uma das irmãs desta - Blanca Duarte, com contínuas alusões a um "grande segredo" que "todas as pessoas ignoram. Escapará às investigações dos historiadores. Morrerá com a morte de muitas poucas pessoas".

Foi também apresentado um documento legal em que Felisa Bonorino, esposa de Pedro Quartucci, manifesta que Nilda, nascida em 26 de Outubro de 1940, é filha legítima do seu marido e de Eva Duarte Perón.

Pedro Quartucci, actor, conheceu Eva quando rodavam juntos em 1937, o filme "Segundos Afuera".

Roxana declarou que o seu avô Pedro lhe assegurou, que Evita era a sua verdadeira avó, e não a actual esposa daquele, como ela pensava.

A suposta neta declarou que Evita sofreu muito depois de enteirar-se que a filha que deu à luz, não tinha morrido, mas sim, que lha tinham tirado.

Em 1946 o médico, Florencio Escardó, que a atendeu em parto em 1940, confirmou a Evita que a sua filha era Nilda Quartucci e que ela estava viva desde 1940, pois foi-lhe dito o contrário após o parto.

"Eva teve uma filha por amor, e o meu avô cometeu o erro de decidir que tinha morrido após o parto...".





Roxana Panzeri (à esq.) e Nilda Quartucci (à dir.) afirmam-se como neta e filha de Evita, respectivamente.

"Isto é uma exigência moral", proclama Nilda, com 60 anos de idade, e com um físico parecido com o de Evita, sustentam pessoas que conheceram Eva de perto.

Se a prova genética do ácido desoxirribonucleico (ADN) coincidir com a da irmã de Eva Peron (Erminda), Nilda terá direito a metade do que as irmãs de Evita herdaram.





Bibliografia sobre EVA PERON














Este é o livro sobre o qual a autora, Maria Flores, põe a nú toda a vida escondida de Evita, sendo esta a citação mais violenta :"... não era uma mulher-mulher, com uma recordação afectuosa de momentos passados como qualquer mulher com os seus amigos... nem uma mulher-homem, embora o possa ter sido, mas uma mulher-política... uma mulher demasiado mitificada, demasiado hábil, demasiado assexuada, demasiado obstinada, demasiado autoritária, demasiado lisonjeira, demasiado astuta, demasiado enfeitada de diamantes, demasiado vingativa, demasiado ambiciosa - e muito, muito subestimada, muitíssimo subestimada pelo nosso mundo...".






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